O ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Político Social) do
Espírito Santo, Cláudio Antônio Guerra, revela no livro “Memórias de uma
Guerra Suja” que se disfarçou de padre para tentar assassinar Leonel
Brizola, fundador do PDT e um dos líderes da resistência contra a
ditadura militar. O disfarce era uma estratégia para responsabilizar a
Igreja Católica pelo atentado.
Segundo Guerra, a operação foi comandada pelo coronel de Exército
Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações - SNI) e pelo
comandante Antônio Vieira (Centro de Informações da Marinha - Cenimar).
“Os militares também andavam muito aborrecidos com a Igreja Católica,
que estava se alinhando à esquerda, pela abertura política”, afirma
Guerra. Perdigão e Vieira também estavam à frente do atentado ao
Riocentro.
Guerra levava também uma pasta com um revólver calibre 45. A arma era
a preferida dos cubanos. A intenção também era ligar o governo de Fidel
Castro ao assassinato. “Eu me lembro do boato de que Fidel Castro
estava aborrecido por Brizola ter ficado com o dinheiro enviado por Cuba
para financiar a guerrilha do Caparaó (o primeiro movimento de luta
armada contra a ditadura militar). Os militares estimulavam esses boatos
nos quartéis e entre nós”, revela Guerra. “Com o retorno de Brizola, os
comentários sobre o dinheiro de Fidel apareciam aqui e ali”.
“O objetivo (do atentado) era implicar a Igreja Católica –
resolveríamos dois problemas de uma vez só – e envolver os cubanos,
insatisfeitos com a suspeita de desvio de verba para a guerrilha do
Caparaó; daí a arma calibre 45”, aponta. “O objetivo, como sempre, era
tumultuar o processo de redemocratização do Brasil”, reafirma o
ex-delegado em depoimento ao jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo
Netto no livro que acaba de ser publicado pela editora Topbooks.
A
tentativa de assassinato ocorreu quando Brizola morava em Copacabana,
no Rio de Janeiro. A data é incerta. Guerra conta que foi entre “a
chegada dele do exílio, em 1979 e antes da demissão do chefe da Casa
Civil, Golbery do Couto e Silva” em 1981. O ex-delegado afirma no livro
que se hospedou no Hotel Apa, na rua República do Peru. O hotel existe
até hoje. Ele se registrou com identidade e CPF falsos, concedidos pela
Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro na época. “Quando
precisava incorporar um personagem para realizar uma missão, eles
forneciam tudo: CPF, identidade, tudo”, relata.
O ex-delegado revela no livro “Memórias de uma Guerra Suja” foi até a
porta do prédio onde Brizola montado na garupa de uma moto conduzida
pelo tenente Molina, um militar do Cenimar. Normalmente o líder de
esquerda saía de casa “um pouco antes do meio-dia”, pelas informações do
SNI repassadas ao ex-delegado do DOPS. Naquele dia, Brizola não desceu e
o atentado foi abortado. “Havia o interesse da comunidade de
informações em eliminar Brizola, só que depois houve um retrocesso, uma
mudança”, afirma Guerra.
Brizola sofreu uma tentativa de assassinato no Hotel Everest, no Rio
de Janeiro, em 18 de janeiro de 1980, quatro meses depois de chegar do
exílio. Uma bomba foi deixada na porta do apartamento do líder de
esquerda mas desativada em seguida.
Fonte: IG.COM
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