Turquia, no século XIV, o Mullá Nasrudin escreveu histórias em que ele mesmo era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras desde sua época, enraizando-se em váriasculturas. Elas compõem um imenso conjunto que integra a chamada Tradição Sufi, ou o Sufismo, seita religiosa ou de sabedoria de vida, de antiga tradição persa eque se espalha pelo mundo até hoje. (Em Londres, nos anos 1960, Doris Lessing foi uma de suas seguidoras). Como o budismo e o zen-budísmo, o sufismo sempre aliou o (bom) humor com sabedoria.
O SERMÃO DE NASRUDIN
KHAWAJAH NASR AL-DIN
Certo dia, os moradores de um pequeno lugarejo quiseram pregar uma peça no Mullá Nasrudin. Na época ele já era considerado uma espécie meio indefinível de homem
santo, e então, para testá-lo, resolveram convidá-lo para fazer um sermão na mesquita. Nasrudin concordou.No dia marcado, ele subiu ao púlpito e falou:
- Ó, fiéis! Vocês sabem sobre o que eu vou falar para vocês?
- Não, não sabemos - responderam eles, em coro.
- Já que não o sabem, não poderei vos falar nada. Gente ignorante, isso é que vocês todos são. Assim não é possível começar o que quer que seja - disse o Mullá,
bastante indignado com a ignorância daquela gente que o fazia perder tempo.
Para surpresa geral, Nasrudin desceu do púlpito e foi para casa.
Dias depois, um pouco envergonhados, formaram uma comissão de fiéis que seguiu até a casa de Nasrudin para, mais uma vez, convidá-lo para fazer o sermão da sexta-feira
seguinte, dia da oração.Nasrudin subiu ao púlpito e começou o sermão com a mesma pergunta da semana anterior:
Desta vez a congregação respondeu em coro:
- Sim, Mullá, sabemos.
- Neste caso - disse Nasrudin -, não existe razão para prender-vos aqui por mais tempo. Podem se retirar.E voltou para casa.
Por fim, conseguiram persuadi-lo a fazer o sermão da sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta:
- Sabem ou não sabem?
A congregação, julgando-se preparada, respondeu:
- Alguns sabem e outros não.
- Ótimo - disse Nasrudin -, já que é assim, que aqueles que sabem transmitam o que sabem para aqueles que não sabem.
E foi para casa.
COMO NASRUDIM CRIOU A VERDADE
KHAWAJAH NASR AL-DIN
As leis não fazem com que as pessoas fiquem melhores - disse Nasrudin ao Rei. - Elas precisam, antes, praticar certas coisas de maneira a entrar em sintonia com
a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.
O Rei, no entanto, decidiu que ele poderia, sim, fazer com que as pessoas observassem a verdade, que poderia fazê-las observar a autenticidade - e assim o faria.
O acesso a sua cidade dava-se através de uma ponte. Sobre ela, o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos, na alvorada do dia seguinte, o Chefe da Guarda estava a postos em frente de um pelotão para testar todos os que por ali passassem.
Um edital fora imediatamente publicado: "Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso na cidade permitido. Caso mentir, será enforcado."
Nasrudin, na ponte entre alguns populares, deu um passo à frente e começou a cruzar a ponte.
- Onde o senhor pensa que vai? - perguntou o Chefe da Guarda.
- Estou a caminho da forca - respondeu Nasradin, calmamente.
- Não acredito no que está dizendo!
- Muito bem, se eu estiver mentindo, pode me enforcar.
- Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!
- Isso mesmo - respondeu Nasrudin, sentindo-se vitorioso. - Agora vocês já sabem o que é a verdade: é apenas a sua verdade.
O RELÓGIO
KHAWAJAH NASR AL-DIN
O relógio de Nasrudin vivia marcando a hora errada.
- Mas será que não dá para tomar uma providência? - alguém comentou.
- Qual providência? - falou o Mullá.
- Bem, o relógio nunca marca a hora certa. Qualquer que seja a providência já será uma melhora.
Nasrudin deu uma martelada no relógio. O relógio parou.
- Você tem toda a razão - disse ele. - De fato, já dá para sentir uma melhora.
- Eu não quis dizer "qualquer providência", assim literalmente. Como é que agora o relógio pode estar melhor do que antes?
- Bem, antes ele nunca marcava a hora certa. Agora, pelo menos, duas vezes por dia ele vai estar certo.
Moral: É melhor estar certo algumas vezes do que jamais estar certo.


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