Numa grande e misteriosa casa vivem três irmãos.
Cada um é diferente do outro.
No-entanto, se você procurar distinguir irmão de irmão,
descobrirá que todos três se parecem muito entre si.
O primeiro não está em casa — ainda não chegou.
O segundo estava, mas chegou e se foi.
O terceiro, o menor dos três, está em casa, pois se não
estivesse seus dois irmãos não poderiam existir.
Contudo, a existência do terceiro só pode ser avaliada porque
o primeiro se transformou no segundo.
E, se você olhar bem para o terceiro
o primeiro e o segundo é que virão à sua lembrança.
Decifra a charada: são os três realmente um só?
São apenas dois? Ou talvez nenhum?
E se, cara menina, seus nomes você descobrir
saberá que são três poderosos reis
governando juntos um grande reino,
e são eles próprios esse reino,
que dominam em pé de igualdade.
Manu ouvira atentamente. Depois, suspirou:
— Santo Deus! Esta é mesmo difícil! Não tenho a menor
idéia da resposta e nem sei por onde começar.
— Experimente! — disse Mestre Hora, estimulando-a.
Manu repetiu a adivinhação, procurando o sentido; em seguida,
sacudiu a cabeça c confessou:
— Não sei mesmo!
Enquanto isso, Cassiopeia, que os tinha acompanhado, estava
junto de Mestre Hora e observava Manu cuidadosamente.
— Bem, Cassiopeia, você que sabe tudo com meia hora de
antecedência, responda: Manu resolverá a charada? — perguntou
Mestre Hora.
A resposta apareceu nas costas da tartaruga: resolverá.
— Está vendo? — disse ele à menina. — Você vai acertar,
Cassiopeia nunca se engana!
Manu franziu a testa, esforçando-se para adivinhar. O que
podiam ser os três irmãos morando na mesma casa? Evidentemente
não se tratava de seres humanos.
Aqui, porém, eram três irmãos que de certo modo se transformavam
um no outro? Seria alguma coisa como flor e fruto,
semente? Talvez fosse isso: a semente era o menor dos três "irmãos",
e sem a semente a flor e o fruto não existiriam. Mas na
charada olhando-se para o "terceiro irmão", eram o primeiro e o
segundo que se v i a m . . . Não dava certo também!
Os pensamentos da menina percorriam todos os campos; por
mais que se esforçasse não conseguia encontrar uma pista. Mas
Cassiopeia afirmara que ela acharia a resposta... Começou então
a repetir lentamente a charada. Quando pronunciou as palavras:
"O primeiro não está em casa, ainda não chegou" viu a tartaruga
piscando para ela e na sua carapaça apareceram depressa, desfazendo-
se imediatamente, estes dizeres: aquilo que eu sei.
Embora não estivesse olhando para a tartaruga, Mestre Hora
sorriu e disse:
— Fique quieta, Cassiopeia, não precisa dar palpites. Manu
vai encontrar sozinha a resposta.
Naturalmente a menina leu o que aparecera nas costas da
tartaruga e começou a imaginar o que significaria aquilo. Que
é que Cassiopeia sabia? — que ela ia decifrar a charada? mas isso
não adiantava muito! Que mais podia ser? Ah! Cassiopeia tinha
conhecimento das coisas "antes" de acontecerem... então conhecia.
— O futuro! — exclamou Manu. — O primeiro não está
em casa — ainda não chegou, isto quer dizer o futuro. O segundo
estava, mas chegou e se foi — significa o passado.
Mestre Hora acenou afirmativamente, sorrindo satisfeito.
— Mas — continuou a menina pensativa — agora é o mais
difícil: o que será o terceiro? É o menor dos três, sem ele os dois
outros não podem existir... e é o único que está em casa...
Refletiu u m pouco e gritou de repente:
— É "agora!" Ê este momento! O passado é formado pelos
momentos que se foram; o futuro pelos que ainda vão chegar e
nenhum dos dois pode existir sem o presente. Acho que acertei!
As faces de Manu estavam coradas de entusiasmo.
— Mas o que quer dizer o seguinte: "A existência do terceiro
só pode ser avaliada. Por que o primeiro se transformou no
segundo?" Ah! já sei, deve significar que o presente só existe porque
o futuro já virou o passado.
Olhou para Mestre Hora, cheia de espanto:
— É verdade, e eu nunca tinha pensado nisso antes. Mas
então existe realmente o presente, ou só o passado e o futuro?
Agora, por exemplo, quando falo no presente, ele já se tornou pass
a d o . . . assim, compreendo também que olhando para o terceiro
irmão, é o primeiro e o segundo que nos vêm à mente. Afinal, poderíamos
dizer que só existe um único irmão — o presente; como
poderíamos dizer que só existem, na realidade, o passado e o futuro.
Ou talvez nenhum deles, pois cada qual só tem existência
em relação aos outros dois. Puxa! fiquei de cabeça quente!
— Mas a charada ainda não acabou — disse Mestre Hora.
— Qual é o grande reino que os três governam juntos, e que eles
próprios constituem?
Manu voltou-se para ele, perplexa. Que seria isso? Onde é
que o presente, o passado e o futuro se encontram juntos?
Seu olhar percorreu a sala imensa, fixando-se nos milhares
de relógios. Com expressão subitamente iluminada, exclamou
então:
— É o Tempo! Isso significa o Tempo!
E pulava de alegria.
— Diga-me agora qual é a casa em que moram os três irmãos
— acrescentou Mestre Hora.
— Deve ser o mundo — respondeu a menina.
Desta vez foi Mestre Hora quem bateu palmas de contentamento:
— Bravo! Parabéns, Manu! Você é boa nas charadas! Isso
muito me alegra.
Manu estava ainda com o pensamento naquela adivinhação
e fez de repente esta pergunta:
— Diga-me: que é afinal o Tempo?
— Você já o descobriu sozinha! — respondeu Mestre Hora.
— Mas eu quero saber o que ele é em si mesmo? Se existe,
deve ser alguma coisa! O que é realmente o Tempo?
— Seria bom que você própria também encontrasse essa resposta
— disse Mestre Hora.
Manu ficou longo tempo pensativa. Depois, murmurou absorta:
— Ele existe, isso é certo. Mas não se pode agarrar o Tempo,
nem conservá-lo. Será como uma espécie de perfume? Mas
se é uma coisa que está sempre passando, deve vir de algum lugar.
Será como o vento? Não; já sei: talvez seja como uma espécie de
música, que não se ouve porque está sempre tocando... mas
penso que eu já a escutei às vezes, muito baixinho.
— Sei disso — confirmou Mestre Hora — e foi por esse
motivo que pude mandar buscar você.
— Deve porém haver mais alguma coisa — continuou Ma-
nu, sempre meditando. — A música vinha de muito longe, e no
entanto parecia ressoar no mais profundo de mim mesma. Talvez
o Tempo também seja assim?
(Michael Ende)

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