9 de abril de 2011

Doris Lessing - Shikasta



"Cada jovem - estou falando de modo geral, não dos indivíduos 
raros -enfrenta os pais com antagonismo porque, tendo-he sido prometido 
tudo, compreende agora que isso não vai acontecer, e a rejeição, o desapontamento 
por uma promessa não-cumprida, une-se à reprovação dirigida aos pais. 

Não conhecem a própria história como espécie, nem as razões reais da sua condição: 
não sabem de nada, não compreendem coisa alguma, mas estão convencidos, 
pela arrogância da sua educação, de que são os herdeiros intelectuais de todo o conhecimento 
e de toda a compreensão. Contudo, a cultura se desmoronou, e é odiada 
pelos jovens. Eles a rejeitam enquanto se agarram a ela, a exigem, tiram dela 
tudo o que podem tirar. E, por causa desse ódio, mesmo aquilo que é bom e perfeito 
e útil nos valores tradicionais, é rejeitado. E, assim, cada jovem vê-se subitamente 
enfrentando a vida sozinho, sem normas ou regras, ou leis, ou mesmo alguma 
informação na qual possa confiar. Como acreditar que da anarquia brutal que os 
rodeia possa sair algo de bom? Contudo, estão equipados para fazer julgamentos, e 
para usar a mente de certo modo -assim lhes ensinaram. São equipados para ser 
auto-suficientes e capazes de julgamento individual, e começam então a cinzelar 
seus territórios emocionais com a crueldade total e o interesse pessoal característicos 
das faixas do Noroeste, desde quando esses animais dominaram o mundo saqueando 
e pilhando -mas agora não se trata apenas dos povos dessas faixas, mas 
de todos, em todos os lugares. Pois, à sua frente, estende-se essa longa vida, sem 
fim, sem fronteiras -têm tempo para corrigir erros, mudar de caminho, transformar 
o errado em certo... "

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